Maio 7, 2008...12:52 am

Onde está a atitude?

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Artigo retirado do site: www.punknet.com.br
19/04/2008 | por Pedro de Luna

Na década de 90, a banda carioca Ack, gravou uma música na sua fita demo em cassete chamada “Where´s the atitude?”. Dez anos depois, a pergunta torna-se ainda mais pertinente. Bandas de rock independentes do Brasil, onde está a atitude de vocês?

CASSETE 13 x CD 6

Para os novatos, posso dar a impressão de ser um coroa saudosista, mas não sou. Do alto dos meus poucos 33 anos, estou terminando de escrever meu primeiro livro, que abordará as transformações da cena underground brasileira nos últimos 15 anos, do ponto de vista de alguém que morava na cidade de Niterói (Rio de Janeiro).

Pedro e Fitas Cassete

No capítulo dedicado aos fanzines, fiquei surpreso ao analisar a seção de resenhas do zine Shape A # 10. Em 1997, poucas bandas conseguiam lançar CD, que ainda era caro. Das 19 resenhas, apenas seis eram neste formato, contra 13 em cassete. Ou seja, passados apenas dez anos, a imprensa e os executivos da indústria já discutem a morte do Compact Disc!!!

Demo Core Flakes - Flocos Crocantes de Hardcore.

Demo Core Flakes – Flocos Crocantes de Hardcore

Demo Curinga - Carta fora do baralho

Demo Curinga – Carta fora do baralho

A partir daí é fácil concluir por que, em parte, a “cena” hoje é pior que na década passada. Analise comigo. Nos anos 90 também havia muitas bandas, a maioria com o sonho dourado de assinar com uma gravadora e vender milhares de discos.

Porém, o intercâmbio e o acesso a informações eram mais difíceis. Existiam os cadernos de cultura, as rádios rock (Fluminense, Universidade e Cidade no Rio, 89 FM e Brasil 2000 em São Paulo, Ipanema em Porto Alegre, sem contar as de Curitiba, BH, e os programas especializados, sobretudo em rádios comunitárias) e várias revistas. Foi também a época áurea da MTV no Brasil. Mas não existia a internet. Não de forma popular como hoje. E tv a cabo era para poucos.

CRIANDO ESPAÇOS

Neste período pré-internet, a comunicação acontecia por carta, fax e telefone. E, claro, pelo meio mais antigo do mundo: boca-a-boca. A informação circulava através dos Correios, dos fanzines e nas ruas. Naquela época, por incrível que pareça, havia mais espaço para as bandas tocarem. Em parte por que as próprias bandas criavam esse espaço. Bastava ocupar um bar, uma cantina de faculdade, uma praça, para que logo virasse um point de shows. Havia mais atitude. “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”, já cantava Geraldo Vandré.

Carta - Teenager In A Box

Hoje vivemos uma dualidade. Ao mesmo tempo em que é mais fácil divulgar uma banda – através de blogs, fotologs, websites pessoais, sites de relacionamento, e-mail e Sedex – é também mais difícil, pois os espaços para tocar e se divulgar com grande repercussão diminuíram. Em 16/03/08 o Jornal do Brasil publicou a matéria “A morte das revistas de música”, baseada no fim da Bizz, Revista da MTV e Outracoisa. O trio de cadáveres veio se juntar a Laboratório Pop, Zero, Jornal do Rock e Mosh. O espaço dentro dos diários também diminuiu. O próprio JB tinha, nos anos 90, um suplemento semanal chamado “Zine” dedicado aos independentes.

Armário de Cds

Geladeira com adesivos

Geladeira com adesivos

TEMPO É DINHEIRO

Logo, temos hoje dois grandes problemas: a falta de tempo e de esforço. Ao invés de nos proporcionar mais tempo livre (ou seja, lazer), a tecnologia faz com que trabalhemos mais. Estamos o tempo todo ligados, seja na TV, na web ou no celular. Hoje, um jornalista, um executivo de gravadora e um produtor de eventos têm menos tempo para ouvir todos os discos que recebem. O que dizer de acessar sites de bandas ou mp3 enviados por e-mail?

Eu mesmo não acesso nada, nem escuto música online. Só dedico meu tempo a banda que também o dedicou a mim. Em parte por que meu tempo para ouvir música também se reduziu. Gosto de ver a capa, a foto dos músicos, folhear o encarte com letras, operar meu aparelho de som com suas caixas mais potentes que a do computador. Podem me chamar de “antigo”, mas quase não uso meu mp3 player. Será que, se todo mundo aderir ao modo de vida digital, daqui a pouco ninguém mais vai assistir a um show pessoalmente, e sim pela webcam?

Pato Fu e De Luna

Pato Fu e Pedro/97

São muitas questões para refletirmos e debater. A evolução tecnológica facilitou a gravação e a difusão das músicas, mas o que continua valendo é a qualidade delas e o trabalho que a banda está disposta a fazer (também offline) para conseguir um lugar ao sol.

ENTRE EM CONTATO

As fotos desta coluna são quase todas de minha autoria e representam muito bem o que existia na década de 90, com fitas demo em k7, adesivos (graças a ele minha geladeira tem um style diferente), fanzines e catálogos enviados pelo correio. Correio? Claro, para onde você acha que os grupos e gravadoras enviam seus CDs? Até hoje mantenho a minha Caixa Postal 106.083 Niterói Rio de Janeiro 24232-971. Mas se você preferir falar comigo por e-mail, mande pra deluna@punknet.com.br desde que sem mp3 anexado, claro.

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